terça-feira, 20 de novembro de 2012

Índios e negros na história de Mairi


Por Gildazio de Oliveira Alves

São escassas as produções historiográficas acerca do município de Mairi. Existem muitas estórias contadas e algumas escritas sobre as famílias, os costumes, as personalidades consideradas importantes. O que se produziu até o momento, parte apenas do início da povoação branca, os povos indígenas, os negros e suas culturas ainda não foram contemplados. Esse texto é um resumo do Artigo de minha autoria intitulado “Aspectos da historiografia de Mairi frente aos desafios e perspectivas educacionais a partir da Lei 11.645/08” e traz fragmentos das obras “Mairi, sempre Monte Alegre” de Epitácio Pedreira de Cerqueira e “Lágrimas Azuis” de Iraci Pacheco Pedreira, escritos que se encarregam de apresentar os chamados “homens de bem”, os heróis da historia local, fundadores e personalidades importantes.
O elemento indígena na história do sertão surge sempre envolto numa áurea de suposições. Na história de Mairi o cenário não é diferente e o índio perde importância na formação cultural do município. “Embora o município, por certo, tenha sido habitado por indígenas, provavelmente os payayás, não tem a sua população, à exceção da região de Tabua e Aroeira, sinais da descendência”  (PEDREIRA, 1994, p.98)
Monte Alegre em período anterior ao século XIX, e até a segunda metade deste, pertencia a Jacobina, freguesia que nos séculos XVIII e XIX ocupava vasto território com muitas vilas. Segundo Vilhena (1969, p.560) a vila de Jacobina era uma das mais importantes no período, ao lado das vilas de N. S. do Livramento do Rio de Contas, Vila do Urubu de Cima e Vila de São Francisco das Chagas: “Jacobina foi, no século XVIII, um dos maiores municípios da província. Seu primeiro desmembramento ocorreu em 1746, quando se emancipou a freguesia de Urubu de Cima, com sede na atual Paratinga. No século XIX, três novos municípios se emanciparam de Jacobina: Monte Alegre (1857), hoje Mairi, Morro do Chapéu (1864) e Riachão do Jacuípe (1878). (VIEIRA FILHO, 1992, p.21)
Epitácio Cerqueira na obra Mairi sempre Monte Alegre destaca: A cidade de Mairi surgiu sob o signo da cruz, da Santa Cruz, quando missionava pelos sertões da Bahia, um grupo liderado pelo frei Apolônio de Todi, livres, os sertões do estorvo dos seus primitivos habitantes, a numerosa e temida nação maracá, que se derivara, desde muito, para o sul da capitania, em sua floresta combatida pelo empoboada em recompensa à ingênua hospitalidade do aborígine”. (CERQUEIRA, 2003, p. 30)
Percebe-se que no início do século XIX quando do estabelecimento da fazenda Santa Rosa e da descoberta do monte pelo frei Apolônio de Todi, o território de Mairi já não mais contava com a presença dos Maracás ou Paiaiás, uma presença classificada por Cerqueira como estorvo. Essa é uma das poucas referências ao índio na historiografia de Mairi, os demais relatos sobre o território local não trazem referência ao passado indígena, apenas às missões religiosas e aos “heróis desbravadores” que trouxeram os primeiros sinais de civilização.
. Ainda que se realce a origem branca de Mairi é perceptível a mistura de raças que formou a povoação local. Ao referir-se às origens dos familiares da Fazenda Tabua, hoje situada no município de Várzea da Roça, mas que antes pertencia a Mairi, Pedreira (1994, p.13) destaca: “Há fortes indícios da presença indígena na área, o que demonstram os utensílios ali encontrados e também as características físicas de muitas pessoas da família”. Nesse caso, há o reconhecimento da presença indígena na formação da população local, restando um aprofundamento dessa análise e o reconhecimento do elemento indígena como parte importante na formação da identidade local.
A presença do negro na formação da sociedade local também é negada na história do nosso município, Pedreira (1994, p.97), destaca “Há aqui a predominância de algumas famílias, sendo talvez a Rios a maior delas. Predominam também os brancos. Os negros são minoria e no passado eram quase inexistentes”. Esse breve relato não se sustenta na realidade atual, tampouco nas evidências históricas. Vieira Filho (2006, p.100) destaca que, “A freguesia de Monte Alegre, segundo mapa de 12 de fevereiro de 1856, apresentava uma população de 13.870 pessoas livres e 820 escravizados totalizando 14.690 habitantes, com 5,91% de pessoas submetidas ao cativeiro”. Ao considerarmos o percentual de escravos no período mencionado, já temos uma noção de que a sociedade montealegrense formou-se sobre as bases do regime escravista como forte presença da população negra. Ressalte-se que essa estimativa relaciona apenas a condição da população - livre e escravizada, sem considerar o critério da cor (população branca e negra), tampouco outras variantes, como negros livres, alforriados, etc. Portanto, os negros são minoria ou inexistem no rall dos fundadores e das pessoas consideradas importantes, contudo, é forte a sua presença desde o inicio da povoação do município e no presente pode-se afirmar que o branco é minoria.
O cerne da questão é que ao branco foi historicamente imputada a idéia de civilização e desenvolvimento, estes são lembrados e lançados na lista dos que fizeram a história de Mairi. “São lembrados os imigrantes e suas famílias dos séculos XVII e XIX que permaneceram em Mairi e influenciaram o seu desenvolvimento” (CERQUEIRA, 2003, p.26) Assim são relacionadas as famílias portuguesas Alves Belas e os Moreira, os italianos da família Farani, os Finamori e os Assuit e a tradicional e numerosa família Rios.
É estranhamente peculiar a descrição acerca de alguns personagens negros na obra Lágrimas Azuis “A fazenda Guilé e Feliciano, fazenda Lagoa d’Anta, pertence hoje a meu primo Abelardo. Dessa fazenda lembro também de Luiza e Valério, africanos que foram escravos de Calixto e que lá viviam numa humilde casinha. Eram pretos, carapinha branca, lábios enormes e ingenuidade de crianças. Eram irmãos e contavam deles muitas coisas engraçadas.” (p.50):
Mais adiante a autora destaca “Muitos bons professores passaram por aqui, sendo que o professor Luiz Pedro foi um dos mais cultos e severos. Lecionava durante todo o dia e dizem que, à tarde, cochilava muito. Era preto de lábios enormes”. (p.86) Estes são alguns dos poucos registros da presença negra na história local, com destaque aos atributos físicos e à suposta personalidade excêntrica dos negros, nenhuma correlação com a realidade sócio-econômica ou com as raízes escravistas da sociedade local. Citando os cadernos com anotações de D. Elpidia Oliveira Nunes (Filhinha) a autora destaca: “13 de maio de 1888. Foram livres todos os escravos do Brasil, pela princesa Isabel, regente do Império. Por isso, ela ficou com o nome de “A Redentora”. Houve escravos no Brasil por 339 anos” (p.87). Desta forma, a mesma se distancia do Regime Escravista, ficando Monte Alegre fora de uma análise que considerasse os aspectos sociais políticos e econômicos que o inseriam no regime escravista.
Percebe-se que a história de Mairi é escrita dentro da perspectiva do século XIX, com seus valores e seus ideais de progresso, sem nenhuma perspectiva antropológica, tão comum desde o século passado, uma história que ensinada nas escolas faz perpetuar na educação local a visão eurocêntrica
Creio ser necessário, “recontar” essa história, vislumbrando novos personagens e lançando “fios de luz” sobre os esquecidos. É preciso inserir a origem de Mairi no projeto colonizador português, que explorou o litoral com o modelo escravista da “indústria açucareira” e adentrou o sertão, escravizando e matando os índios em busca do ouro. Por outro lado, é preciso rever, a imagem de “aborígine” dada ao índio, ou, até mesmo de inocência e passividade. É preciso compreender os povos indígenas e os negros enquanto culturas, com saberes e práticas diferentes que, em contato com o colonizador reagiram das mais diversas maneiras: resistiram, lutaram, guerrearam, integraram-se. Esse deve ser o lugar do índio e do negro na história da nossa sociedade, posição essencial para repensarmos o Brasil enquanto nação heterogênea e que vem ao longo do tempo deixando à margem principalmente os povos indígenas, vitimados constantemente pelo preconceito, pela expropriação de suas terras e pelo descaso dos governos.



4 comentários:

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  3. Olá, Gil. Estou fazendo pesquisa de minha árvore genealógica e busco informações de Mairi, onde minha vó paterna nasceu. Conta-se que o pai dela, filho de proprietário de terras, foi expulso de casa por ter se casado com uma negra. Consta na certidão de nascimento da minha vó que o nome dele é João Maia de Oliveira, filho de Faustino Maia de Oliveira e Euzébia de Oliveira, pessoas que viveram no final do século XIX. A questão é que não encontro nada sobre essas pessoas em lugar nenhum. Talvez o nome esteja errado, não sei dizer. Agradeço se tiver uma pista para me ajudar.

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