quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Pan-Africanismo, Negritude e os processos de libertação do continente africano

Por Gildazio de Oliveira Alves

O Pan-Africanismo surgiu na segunda metade do século XIX predominantemente entre os africanos da África ocidental de colonização britânica, a partir do crescente intercâmbio com negros dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha. Essa troca deu-se inicialmente entre negros que estudaram nas metrópoles européias e nos Estados Unidos e suas idéias foram disseminadas via congressos, discursos, jornais, livros, associações e conferencias. O fruto inicial desse movimento foi a criação em 1897 da Associação Africana e a realização da primeira Conferência Pan-Africana em 1900 na cidade de Londres.
O movimento constituiu-se enquanto contraponto ao discurso racista do século XIX e afirmou-se de maneira eficaz enquanto instrumento de valorização e auto-afirmação africana, assentado no sentimento de solidariedade fraterna entre os povos negros que foram vítimas do colonialismo e/ou do racismo europeu. Desde sua gênese o Pan-Africanismo esteve atento à situação do negro em todo o mundo e voltou-se especialmente contra a ocupação da África.
O conceito de raça foi largamente utilizado pelo movimento para defender a igualdade de aptidões entre negros e brancos, com o anseio de tornar o povo negro “senhor do seu próprio destino”. O discurso de afirmação racial tornou-se combustível ideológico na luta dos povos africanos pela libertação dos seus territórios do jugo europeu.
A noção de raça permeou toda formação Pan-Africana e seu discurso e políticas centraram-se na luta contra toda espécie de opressão do homem negro. A raça seria, portanto, o fator centralizador no processo de união dos negros de todo o mundo.
Dentre os principais pensadores pan-africanistas pode-se destacar Alexander Crummell (1819-1898) que defendia a idéia da homogeneidade racial dos africanos. A África era pensada como um continente formado por um único povo, o povo negro, que devia formar uma unidade natural. Já Edward W. Blyden (1832-1912) refutava o preconceito racista de inferioridade do negro e atribuía as diferenças entre negros e brancos ao meio geográfico e ao processo de opressão sofrido pelo continente. Para Blyden a estagnação social e política da África derivava “tanto do isolamento da África da porção “progressiva” da humanidade como da “influência nefasta” do tráfico de escravos introduzido pelos europeus” (p.142) Merecem destaque ainda, os discursos de William Edward Du Bois (1868-1963) e Marcus Garvey (1887-1940). O primeiro aceitava as diferenças entre brancos e negros fora de qualquer hierarquia e tão somente enquanto complementares, enquanto o segundo acreditava estar predestinado a tornar-se um dirigente para seus irmãos de raça. Imbuído desse propósito e objetivando a preparação dos negros para recuperar a “África para os africanos”, criou em 1914 na Jamaica a Associação Universal para o Aprimoramento do Negro (UNIA).
O Pan-africanismo enquanto discurso e movimento de auto-afirmação africana representou o fermento político essencial na luta contra o colonialismo/imperialismo. Em sua longa trajetória figurou como movimento racial, cultural e político, enriquecendo a luta pela libertação da África, assumindo o caráter anti-imperialista e aproximando-se do socialismo. Para a África de colonização francesa, por exemplo, romper com o imperialismo era condição sine qua non para a conquista da liberdade.
Do processo de “construção” da identidade africana e da necessidade de apreensão dessa totalidade do mundo negro, surgiu em 1939 o termo Negritude, configurando-se enquanto proposta de unidade africana do ponto de vista cultural. Se o Pan-africanismo elaborou a idéia de unidade racial, o movimento Negritude veio apregoar a unidade cultural ou patrimônio comum dos africanos. O termo apareceu pela primeira vez em 1939 no poema lírico Diário de retorno ao país natal do antilhano da Martinica Aimé Césaire. A partir de então passou a ser utilizado em diversas outras publicações. Esse movimento que foi mais forte nas Antilhas francesas teve como principal representante Léopold Sedar Senghor, que defendia a valorização das manifestações culturais africanas como fator essencial na luta contra o racismo.
Os cinco Congressos Pan-africanos realizados entre 1919 e 1945 refletiram a preocupação com a colonização e com os destinos da África. O processo de libertação do continente esteve na pauta desses eventos que influenciaram os rumos da descolonização, levantando a bandeira da liberdade e soberania do continente, no intuito de devolver ao povo negro o direito de dispor do seu próprio destino. As idéias pan-africanistas despertaram a onda de nacionalismo africano do século XX, essencial para o processo de libertação do continente, culminando nas sucessivas independências após o final da Segunda Guerra Mundial.
A descolonização da África ocorreu num cenário de disputas, no clima da Guerra Fria, influenciado tanto pelo bloco de países capitalistas liderados pelos EUA como pelas nações socialistas emergentes (URSS e China). Nesse processo havia os interesses das elites africanas em desvincular-se dos interesses metropolitanos e assumir as rédeas do poder local e a onda nacionalista dos próprios nativos.
Os movimentos Pan-Africanista e Negritude influenciaram os processos de libertação da África através da luta pela afirmação política e cultural dos africanos. Esses movimentos tiveram como principal dificuldade a diversidade étnica, cultural e política da África. Assim, a idéia de unidade esbarrava sempre nas diferenças e divisões do continente africano aprimoradas pelo processo de colonização que o fragmentou ainda mais e acirrou os conflitos internos.
A emancipação política das colônias africanas de forma alguma representou de todo uma ruptura com o sistema. Nesse processo, as mesmas foram tão somente inseridas na nova ordem mundial, ocupando posições periféricas. A África foi descolonizada e não recebeu os investimentos necessários, capazes de melhorar a infra-estrutura e a vida do seu povo. No limiar do século XXI o continente continua numa posição desconfortável frente aos “negócios estrangeiros” e enfrenta o desafio de romper a exclusão e os efeitos sociais e políticos resultados de séculos de preconceito e exploração.

REFERÊNCIAS
HERNANDES, Leila Leite. O Pan-Africanismo. In: A África em sala de aula.


http://www.atrincheira.com.br/artigos/adailNegritude.htm

4 comentários:

  1. muito bom o resumo do texto, me ajudou bastante!!!!

    ResponderExcluir
  2. muito bom o texto mesmo, foi um ótimo trabalho, meus parabens

    ResponderExcluir