terça-feira, 18 de novembro de 2014

A comunicação enquanto estratégia de defesa e de reconstrução de laços afetivos e familiares entre os negros africanos no Brasil

Por Gildazio de Oliveira Alves
O tráfico de escravos africanos para as américas produziu o turbulento encontro de distintos grupos étnicos das mais distintas tribos e regiões da África, ainda nos porões dos navios negreiros. Nesses contatos iniciais o desenvolvimento de linguagens e códigos comuns se transformaria em ferramenta imprescindível na formação de novos laços afetivos entre os negros e de estratégias de comunicação e defesa frente aos senhores.
       O estabelecimento de novos laços de nação e a construção de novas identidades é o centro da discussão estabelecida por Maria Inês Cortês de Oliveira em Viver e morrer entre os seus. Para essa autora uma vez desfeitos os laços familiares e afetivos de outrora, os africanos encontraram nas mais variadas formas de contatos entre os “irmãos de nação”, maneiras de construção de novos laços afetivos.
            Para Robert W. Slenes em “Malungu, ngoma vem! África coberta e descoberta do Brasil”, a falta de interesse dos brancos brasileiros em conhecer a língua dos escravos, aliada ao fato dos diferentes grupos possuírem um vocabulário-raiz comum a todos, possibilitou aos escravos a oportunidade de defesa frente a seus senhores, mediante códigos de comunicação que misturavam a língua de origem com o português, uma resistência silenciosa e dissimulada. A partir dessa primeira análise torna-se possível delinear o estabelecimento de vínculos ente os escravos, a partir da associação dos mesmos, na formação de uma verdadeira “irmandade de defesa” e/ou combate. Os malungos, companheiros de embarcação, irmãos de luta e de sofrimento, conhecendo um certo dialeto raiz, fortaleceram-se frente aos brancos, que desconheciam e recusavam tal dialeto.
O contato dos escravos com uma nova realidade exigiu a adequação dos grupos a novas regras, com critérios que demarcavam limites raciais, sociais e culturais. Esse sistema de classificação e separação criteriosa foi uma imposição do Poder civil e da igreja visando a separação de grupos considerados culturalmente diferentes e potencialmente hostis, que inicialmente tornou os grupos mais coesos, e se esvaeceu posteriormente, com os matrimônios e as práticas religiosas intergrupal.
A construção de novos laços familiares e afetivos, passaram inicialmente, pela concepção de “irmão de nação”, extremamente importante para as estratégias de “associação étnica”.  Os vínculos de solidariedade entre negros foram sendo construídos pela comunicação estabelecida e graças ainda, à constatação do “sofrimento comum”.
Antigos laços foram refeitos com o encontro entre parentes oriundos da mesma região. Esses vínculos estavam explícitos nos testamentos quando, até parentes mais afastados eram lembrados. Quanto à constituição de novas famílias tornou-se comum a preferência dos indivíduos pelos irmãos de nação. Outra forma de reconstrução de vínculos afetivos e familiares foram as relações de compadrio, essencial para assegurar a proteção e educação dos filhos na ausência dos pais. Nesse caso, percebe-se o parentesco ritual substituindo vínculos familiares desfeitos pelo cativeiro e a recomposição simbólica dos “laços de família”. No tocante a relação entre vizinhos e agregados, um exemplo são as condições de moradia em Salvador do século XIX, que permitia, a partir das moradias coletivas a partilha do mesmo teto entre escravos e libertos de uma mesma nação, possibilitando a formação de comunidades e a consequente articulação de levantes.
A comunicação foi, sem dúvidas, fator primordial para o estabelecimento de novos vínculos e para a redefinição de identidades. A língua bantu foi facilitadora dessa articulação entre escravos no centro-sul e, a nagô na Bahia do século XIX, perpassava qualquer ideal de nação e tornava-se língua comum entre escravos e libertos. A comunicação foi utilizada ainda, enquanto instrumento de defesa, na soma de esforços no sentido de atenuar o sofrimento do cativeiro. 
Assim, Slenes destaca que a utilização do termo “ngoma vem” como código de comunicação usado pelos escravos para avisar a seus parceiros (malungu) da presença do senhor ou do feitor. A expressão, incompreendida pelos senhores, era a mistura da linguagem bantu com o português. A formação da nova identidade bantu no Brasil, ocorre, com os escravos preservando suas raízes culturais e, simultaneamente, incorporando novos elementos, como parte da linguagem e da religião dos brancos, que, por sua vez, desprezavam os africanos, suas linguagens e seus costumes.
Para os grupos africanos “a vida entre os seus”, permitia, concomitantemente, o fortalecimento no enfrentamento das agruras do cativeiro e, mais enfaticamente a reconstrução de vínculos familiares. O estabelecimento de tais vínculos, teve na possibilidade de comunicação, através de uma linguagem com termos conhecidos de todos, fator primordial e indispensável. Essa linguagem pavimentou a reconstrução das identidades bantu e nagô no Brasil. Na Bahia, segundo Maria Inês Oliveira, a reconstrução de vínculos ocorre com os africanos procurando, preferencialmente “viver entre os seus” e, ao mesmo tempo integrando-se a relações com outros grupos, como os crioulos, com quem partilhavam a árdua tarefa de sobreviverem enfrentando hostilidades e preconceitos.

SLENES, Robert W. “Malungu, ngoma vem! África coberta e descoberta do Brasil”. Revista da USP, 12 (jan/fev. 1991/1992), 48-67.
OLIVEIRA, Maria Inês Cortês de. “Viver e morrer no meio dos seus: nações e comunidades africanas na Bahia do século XIX”. Revista da USP, 28 (dez/jan/fev, 1995/1996), 174-193.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Em 2014, votar pela mudança do sistema político: Constituinte já!

Por Pablo Bandeira*

E as campanhas eleitorais ganham as ruas. Passou julho e o mês de agosto iniciou a todo vapor com os candidatos a presidente apresentando para a população quais suas propostas para o Brasil. Entre desenvolvimentistas e liberais, vivemos um momento em que escolhemos “avançar”, entre muitas aspas, limitados pelas barreiras do sistema político, ou escolhemos retroceder, opção que significa literalmente jogarmos fora todas as conquistas dos últimos anos, possibilitadas pela presença de setores populares no governo.
A campanha eleitoral de 2014 já começa a deixar suas marcas, mais uma vez polarizada pelos projetos PT x PSDB e o povo brasileiro se encontra novamente sob o mesmo dilema dos últimos 12 anos. A diferença é que, com o passar dos anos, cresceu o sentimento de descrença da população, devido aos limitados, apesar de importantes, avanços promovidos nos governos Lula/Dilma. Mas o povo começa dizer: queremos mais!
As manifestações de junho do ano passado demonstraram que grande parte da juventude não reconhece como sua as conquistas da última década, a exemplo do aumento real do salário mínimo e a grandiosa ampliação do número de vagas nas universidades federais. O que os seguidos governos do PT não conseguiram, foi fazer com que essa juventude se sentisse parte desse processo histórico de avanços e inclusão social.
Entretanto, desde o ano passado, no pós-manifestações, os movimentos sociais vem assumindo o papel de protagonismo que os partidos da ordem não assumiram: trazer o debate em torno da necessidade de convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte Exclusiva e Soberana do Sistema Político. Essa bandeira nos coloca a possibilidade de passarmos a outro patamar, que é a construção de um Projeto Popular para o Brasil.
Somente quando o povo brasileiro se der conta de que esse sistema político não serve aos seus interesses, conseguirá de fato impulsionar um programa de reformas estruturais, que eleve o nosso país ao nível de uma democracia popular, como disse Florestan Fernandes no início na década de 1980. Por isso, deve ser nosso compromisso mobilizar toda população para organizar, divulgar e responder SIM, de 1 a 7 de setembro a seguinte pergunta: “Você é a favor de uma Constituinte Exclusiva e Soberana do Sistema Político?”.


*Pablo Bandeira, estudante de Direito na Universidade Estadual de Feira de Santana e militante do Levante Popular da Juventude 

segunda-feira, 14 de julho de 2014

 A triste realidade do Judiciário baiano

Por Gildazio de Oliveira Alves
    
            A história do poder judiciário brasileiro remonta à época das capitanias hereditárias, cuja estrutura jurídica era formada por Juízes Ordinários e Vereadores, para aplicar a lei, entenda-se, fazer valer os costumes portugueses e os invioláveis interesses da Coroa e seus apadrinhados. 
          Na Capitania da Bahia, a estrutura judiciária começou a efetivar-se em 1549, quando o primeiro governador-geral Tomé de Sousa instituiu a figura do Ouvidor Geral, responsável pelo julgamento dos pleitos em primeira instância e por controlar a atuação dos juízes e fazer correições em todas as capitanias do governo, revisando as sentenças dos seus ouvidores. Numa época de evidentes conflitos de interesses, a presença da justiça servira na tentativa de manter a ordem e apaziguar uma sociedade em ebulição. 
         A estrutura judiciária baiana está, portanto, no âmago da formação da sociedade brasileira e, hoje, passados tantos séculos enfrenta sérios problemas e amarga a incômoda posição de uma das mais ineficientes do país. É comum presenciarmos toda sorte de queixas, desde a lentidão na tramitação de processos às filas intermináveis em cartórios extrajudiciais, dentre outros. 
            Relatório de Correição realizada pelo Conselho Nacional de Justiça no período de 08 a 12/04/2013, nas diversas áreas do Tribunal de Justiça da Bahia, apresentou uma série de irregularidades administrativas e na prestação jurisdicional, já apontadas em inspeções anteriores e que certamente se desdobram em uma verdadeira cascata de problemas sentidos rotineiramente pela população que busca os serviços da justiça no Estado da Bahia. Dentre os principais problemas detectados o referido relatório destaca: irregularidades com licitações; cessão onerosa de espaço público para instituições financeiras; atrasos em processos judicias e administrativos; graves erros relacionados ao cálculo de precatórios, que teriam causado grandes prejuízos aos cofres públicos; irregularidades em relação ao controle de pessoal, como a existência de servidores fantasmas e de diversos assessores de gabinetes que realizam atividades em casa e pouco comparecem ao trabalho; deficiências nos serviços extrajudiciais (Registro Civil, Tabelionato de Notas e Protesto, Registro de Imóveis, Títulos e Documentos e Pessoa Jurídica), provocadas pela falta de estrutura e de servidores nestas unidades, etc. 
            Não restam dúvidas de que a má gestão do TJBA, que tem um déficit de cerca de 11 mil servidores reflete na morosidade da prestação jurisdicional. Os grandes prejudicados com esse caos são principalmente, os cidadãos, que tem imensa dificuldade de acesso a uma Justiça lenta, cara e ineficaz e os servidores, principais responsáveis pelo atendimento direto às pessoas e que enfrentam evidente sobrecarga de trabalho, acumulam funções para as quais jamais se habilitaram, enfrentam uma rotina de pressão, agressões, assédio moral etc. o que, indubitavelmente, vem resultando na perda da qualidade de vida e no adoecimento precoce. Muitos destes servidores já enfrentam as consequências do stress, hipertensão, síndrome do pânico, LER, depressão etc. 
          Infelizmente a tendência é que o acesso à Justiça se torne cada vez mais oneroso e difícil, uma vez que medidas como agregação de comarcas e varas de entrância inicial, terceirização de serviços e privatização de cartórios tendem a continuar sendo adotadas pela administração do Tribunal e, no horizonte próximo não se desenham medidas como a realização de concurso público para recomposição do quadro de servidores ou a abertura de novas comarcas. 
            Vale ressaltar ainda, que, somando-se aos problemas já citados existem outros como a constante falta de juízes e promotores de justiça nas comarcas menores, além da inexistência de defensores públicos. Quanto aos serviços extrajudiciais, cujo concurso para delegatário encontra-se em andamento, o Tribunal, responsável pela gestão das unidades vagas, vem cobrando taxas de serviço privado em cartórios abandonados há décadas, com poucos servidores e sem aparelhamento necessário. 
         Por fim, é preciso destacar a necessidade da reflexão acerca da atual estrutura e da relação entre os poderes no Brasil, bem como sobre a construção das normas jurídicas, com especial atenção aos nossos legisladores, uma vez que, além das leis maiores como as Constituições, Código Civil, Código Penal etc., questões como Concessões e privatizações, taxas e emolumentos, criação, extinção e agregação de distritos e Comarcas passaram e continuarão passando pelo legislativo. Se ainda não temos eleição para juiz ou desembargador, os legisladores são eleitos por nós. Portanto, é preciso prestar muita atenção em quem votamos para deputado e senador. Não há dúvidas de que, a busca por uma justiça eficaz, passa pelo pleno exercício da cidadania, através do voto, da informação, da participação, da cobrança justa dos direitos, da união de esforços e do cumprimento dos deveres.

terça-feira, 1 de abril de 2014

Ideologia militar, anticomunismo e as razões do golpe militar de 1964

Por Gildazio de Oliveira Alves


             O golpe militar de 1964 não foi obra do acaso, mas fruto de longo processo de amadurecimento de idéias políticas desenvolvidas pelos militares e amplamente arraigadas nesse meio. Para elucidar as razões do golpe é preciso analisar minuciosamente a rede de relações, os embates, as tramas, os golpes e contra-golpes ocorridos na política brasileira desde a Era Vargas até 1964, delineando a constante vigília dos militares acerca do cargo de Presidente da República, com vistas no combate ao avanço comunista.
             Os militares estavam por ocasião do golpe de 1964 convencidos de que o presidente João Goulart levaria o Brasil ao Socialismo. Contudo, a ideologia anticomunista não era novidade na política brasileira e desde a Era Vargas (1951-1954) os militares observavam atentamente cada passo do Presidente. Nesse período, o PTB (Partido Trabalhista Brasileiro) principal partido da base do governo seguia a linha dos partidos socialistas democráticos europeus. Getúlio Vargas tinha como Ministro do Trabalho João Goulart e adotava uma política nacionalista. A busca do apoio dos trabalhadores não surtiu o efeito desejado e a pressão dos adversários civis da UDN (União Democrática Nacional) e dos militares culminou no suicídio do Presidente Vargas em 1954.
Com o suicido Vargas foi transformado em herói e seus opositores não conseguiram eleger sucessor. Em 1955 Juscelino foi eleito pelo PSD (Partido Social Democrático), alinhado ao centro, tendo à esquerda o PTB e à direita a UDN. O governo Juscelino mesmo atacado por militares anti-getulistas e civis da UDN sobreviveu até o fim. Na eleição de 1960 a UDN emplacou Jânio Quadros que até então tinha um discurso que agradava à direita. Jânio fora eleito tendo como vice o candidato a essa função na chapa adversária, o ex-ministro João Goulart. Uma vez no governo Jânio promoveu uma virada à esquerda ao se aproximar de Cuba e ao conceder a Che Guevara a Medalha da Ordem do Cruzeiro do Sul. Pressionado pelos opositores renunciou em 1961. Nesse período o Vice-Presidente João Goulart estava na China e os militares comunicaram que ele não poderia assumir a Presidência. Entretanto, o movimento pela “legalidade” pressionava pela posse de Goulart, o que ocorreu após ampla negociação e acordo que reduziu os poderes do Presidente e transformou o Brasil numa República Parlamentarista. Somente em 1963 através de plebiscito o país voltou a adotar o presidencialismo.
Nos idos de 1960, no governo Jango, o Brasil enfrentava sérios problemas na infra-estrutura física e problemas sociais como a Educação restrita aos mais ricos, a saúde também distante dos mais pobres e a secular estrutura agrária que concentra riqueza e poder. Já a economia apresentava uma combinação pouco agradável de déficit na balança comercial e inflação. A provável solução apresentada no plano elaborado por San Thiago Dantas e Celso Furtado continham medidas impopulares e o Presidente preferiu seguir o plano nacionalista/populista e buscava se aproximar cada vez mais da esquerda, sempre dividida em várias correntes adversárias. O diálogo com o povo através dos grandes comícios, não resultou no devido apoio da população no momento preciso e o golpe militar de 1º de abril de 1964 ocorreu sem que houvesse qualquer resistência.
Ainda acerca das circunstancias do golpe de 1964 é preciso destacar que o mundo estava divido em dois principais blocos com os Estados Unidos e o mundo capitalista de um lado e do outro a União Soviética e os países socialistas. Nesse sentido, cabe destacar que os Estados Unidos participaram diretamente dos conchavos que levaram ao golpe de 1964. Entretanto, a realidade da política brasileira já descrita acima foi decisiva para o “sucesso” do golpe, que ocorreu sem resistências iniciais e com o apoio de setores religiosos e midiáticos. O que ocorreria depois merece uma abordagem à parte. O fato é que o ano de 1964 ficou marcado como o início de um dos períodos mais difíceis da história do Brasil.
Nestes 50 anos do golpe é fundamental refletir sobre este fato marcante da nossa história, bem como sobre o Brasil de hoje, seus vícios, seus males, os resquícios autoritarismo de outrora e a necessidade de continuarmos aprimorando nossa democracia, com vistas a um projeto de nação que considere primordiais a participação popular, a qualidade de todos os serviços públicos e a redução das desigualdades, melhorando os padrões de vida de todos os brasileiros.  DITADURA NUNCA MAIS!!!

quinta-feira, 20 de março de 2014

A BASE DA CHANTAGEM

Por Gildazio de Oliveira Alves
Qualquer análise da história política brasileira nos permite observar que desde os primeiros tempos do Brasil Colônia “negócios suspeitos” permearam as relações de poder. Resguardadas as devidas proporções é possível perceber que as concessões e toda sorte de regalias e troca de favores sempre foram recursos utilizados em larga escala pelos governantes e seus vassalos, do império à república, do domínio lusitano aos dias atuais. Assim, os herdeiros das sesmarias e dos títulos de nobreza de outrora em muito se assemelham aos parasitas alojados nos mais variados escalões da administração pública atualmente.
            No Brasil, o princípio utilizado para a costura das alianças políticas e para a formação dos governos é, lamentavelmente, a falta de princípios, ou seja, a inexistência de critérios político-ideológicos ou programáticos. Não há qualquer alinhamento em função de um projeto de nação, mas simplesmente, a satisfação de interesses mesquinhos, com farta distribuição de cargos públicos aos chamados partidos aliados, que sob a órbita do governo federal vão inchando seus quadros e aumentando o poder de barganha.
Em nossa história recente alguns episódios deixam evidente a deficiência do nosso sistema político. Nesse sentido, merece destaque a conhecida compra da emenda que permitiu a reeleição do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em 1998. Vale ressaltar que à época o PSDB tocava seu governo a reboque de interesses dos caciques do antigo PFL (atual DEM) e de parte do PMDB. O segundo fato marcante é, sem dúvidas, o processo de formação da base aliada do governo Lula no Congresso nacional a partir de 2003 que culminou no chamado “Mensalão”.  O primeiro episódio jamais fora investigado e o segundo foi escancarado na mídia e resultou em cassações no Congresso e na famigerada  Ação Penal 470, concluída recentemente pelo Supremo Tribunal Federal (STF), resultando na condenação de alguns políticos do PT, PTB, PP, PR e PMDB.
Esse sistema em que o jogo de interesses é assentado em chantagens recíprocas está plenamente em vigor no Brasil. Seja através de vantagens financeiras ou da distribuição de cargos públicos, a lógica permanece a mesma. A presidente Dilma se submete a toda espécie de chantagem dos congressistas e os presenteia com cargos em troca de apoio aos projetos de interesse governo.  Essa promiscuidade política fica evidente nas relações estabelecidas entre o governo do PT e os partidos aliados, especialmente o PMDB, este último especialista em tornar-se governo, barganhar cargos e mudar de lado quando é mais conveniente. Tem sido assim desde o fim da ditadura militar. Na mais recente crise, parlamentares do partido se rebelaram e impuseram derrotas ao governo Dilma na Câmara, não por convicção ou por defender os interesses do conjunto da sociedade brasileira, mas pura e simplesmente porque a Presidente não atendera seus interesses na recente reforma ministerial.
No Brasil, a inexistência de partidos fortes, com idéias claras e que se alinham objetivando a implementação de bons projetos, ocasiona o caos vivido atualmente. Não quero aqui discutir reformas, apenas destacar que enquanto prevalecerem no país os partidos fracos e as legendas de aluguel, certamente os governos continuarão utilizando os métodos já citados para montar suas bases e conseguir a chamada governabilidade.  Da mesma forma, o crescimento do número de legendas só aumenta a atual e assustadora crise de representativamente. Preocupa ainda o fato de que, no horizonte próximo, não se vislumbra nenhuma alteração que aponte para a superação desta realidade, uma vez que as eleições deste ano dificilmente resultarão em qualquer mudança de paradigma, de práticas e de postura política que represente ao menos parte dos avanços que a sociedade tanto deseja no momento.   

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

2014: um ano para avançar nas lutas sociais

Por Pablo Bandeira - militante do Levante Popular da Juventude


No ano que se passou percebe-se que as contradições geradas na sociedade, dentro da perspectiva de desenvolvimento do atual governo, de caráter “neodesenvolvimentista”, reforçam cada vez mais a tese de que o mesmo não está de fato comprometido com a resolução dos problemas concretos de nosso povo.

As reformas estruturais necessárias para que avancemos na construção de um Projeto Popular para o Brasil não estão na agenda deste governo, definida pelos acordos e concessões realizados entre forças progressistas e conservadoras. Um bom exemplo é a reforma agrária, que terminou 2013 com um número de desapropriações pior que o último governo militar.

As mobilizações de junho demonstraram uma insatisfação generalizada, principalmente da juventude que foi às ruas, com o atual sistema político. O grito “fora corrupção” revela uma revolta à forma como as coisas funcionam, reflexo essencial de um sistema onde os nossos representantes são aqueles que tem dinheiro para financiar suas campanhas.

Enquanto o poder econômico for determinante para eleição de nossas representações, continuaremos de fato, não representados por aqueles que ocupam os cargos nas câmaras, prefeituras e no congresso nacional. Para isso é preciso que a sociedade se mobilize em torno de uma reforma política profunda que garanta participação direta e popular.

Neste ano de 2013 os movimentos sociais organizados levaram à frente uma proposta que o governo não teve coragem de bancar: realizar um plebiscito sobre a reforma política. A pergunta será “Você é a favor de uma constituinte exclusiva e soberana do sistema político?”. Só o povo mobilizado e consciente poderá dar a resposta. E a resposta será dada nas ruas.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

UM OLHAR SOBRE 2014: perspectivas sócio-econômicas e arranjos político-eleitorais

Por Gildazio de Oliveira Alves

2014 será um ano especial para o Brasil, em virtude de acontecimentos como a Copa do Mundo de futebol e as Eleições para Presidente da República e Governadores, fatos que colocarão o país na mira dos observadores internacionais, mas que passam longe de representar as grandes mudanças que todos nós sonhamos.
Na economia, a menos que seja deflagrada alguma guerra por petróleo ou que uma nova onda de pessimismo assole os Estados Unidos e a Europa, continuaremos crescendo, a taxas pífias, mas avançando. O país tem uma taxa de desemprego em torno de 5% o que é considerado pleno emprego e, uma vez empregado o brasileiro vai às compras, movimentando os diversos setores da economia. Ao mesmo tempo o governo bate recordes em arrecadação de impostos e não consegue transformar o seu “caixa gordo” em bons serviços públicos para a população.
O cidadão brasileiro tem consciência de que o Brasil tem uma economia estabilizada, que tem crescido, gerado e distribuído renda e este cenário provoca certo otimismo. Se não ocorrer nenhum solavanco a Presidente Dilma Rousseff (PT) marchará tranquila rumo à reeleição. Entretanto, os protestos de junho mostraram que existem grandes insatisfações no seio da sociedade brasileira, principalmente em relação aos serviços públicos como transporte, saúde, educação, segurança e uma grande revolta quanto aos desvios éticos dos nossos representantes. Estas questões mostram que o país anseia por mudanças, resta saber se os principais candidatos de oposição, o senador Aécio Neves (PSDB) e o governador de Pernambuco Eduardo Campos (PSB) representarão a mudança desejada pelas ruas e catalisarão os votos dos descontentes. 
Após enfrentar um dos maiores períodos de estiagem dos últimos 60 anos, os nordestinos, especialmente nós baianos, começaremos 2014 mais aliviados em razão das chuvas que chegam em abundância ao nosso Estado, resolvendo problemas de abastecimento de água nas cidades, abrindo boas perspectivas para agricultores e pecuaristas. A Bahia que mesmo com a seca vem apresentando crescimento econômico acima da média nacional terá em 2014 a chance de avançar ainda mais. No cenário político, algumas peças já se movimentam e a eleição estadual deverá ser uma das mais acirradas das últimas décadas. O governador Jacques Wagner (PT) já definiu como candidato do governo o seu Secretário da Casa Civil Rui Costa (PT), que deverá partir para a disputa com uma grande coalizão envolvendo partidos como PP, PR, PCdoB, PRB, PSC e PDT, dentre outros. Já as principais forças de oposição, capitaneadas pelo Prefeito de Salvador ACM Neto (DEM) deverão marchar unidos, com PMDB, PSDB e DEM, restando saber se o candidato será o Vice-Presidente da Caixa Econômica Federal Gedel Vieira Lima (PMDB) ou o ex-governador Paulo Souto (DEM). Uma terceira candidatura deverá ser da senadora Lídice da Mata (PSB) que mesmo pertencendo à base do governador, lançará sua candidatura para oferecer palanque ao presidenciável Eduardo Campos.
Os arranjos políticos a nível estadual produzirão situações curiosas em nosso município. Tudo leva a crer que o Presidente da Assembléia Legislativa da Bahia, deputado Marcelo Nilo (PDT) será o candidato a vice-governador na chapa de Rui Costa (PT) e que DEM e PMDB estarão juntos no palanque de oposição. Na corrida pelo voto dos mairienses as lideranças locais, certamente se adaptarão ao cenário estadual e teremos um certo embaralhamento de forças, com adversários de outrora caminhando juntos. A população terá mais uma chance de verificar que atualmente em nosso país, quando o assunto é buscar ou permanecer no poder, apaga-se a história recente e perde-se a inclinação ideológica, a coerência e até mesmo a vergonha na cara.  Quem viver verá.
Ademais, faço votos que as chuvas continuem caindo em nossa terra, que possamos ser mais sensíveis aos nossos problemas seculares e que as típicas picuinhas da politicagem local não atrasem ainda mais nosso sofrido município. É preciso acreditar que o trabalho individual e a união de esforços produzirão dias melhores para todos. A copa e as eleições não trarão os avanços que precisamos, por isto é preciso manter o espírito de alerta, sair do comodismo, ir às ruas se for preciso, votar e continuar exigindo as mudanças necessárias. FELIZ ANO NOVO A TODOS!!!